Nada existe, tudo é nada.
Tudo é efêmero
vem e vai
e se perde no tempo
e no esquecimento.
Só não vai o que não se quer guardar,
isso fica até corroer
e depois vai e deixa feridas
que vão sangrar muito
até virarem cicatrizes.
Procurei tudo aquilo que perdi
mas em redor de mim
tudo cantava solidão.
Procurei-me em mim mesma
também não me encontrei.
Fui seguindo em pedaços,
sobrou-me restos de mim
que foram empurrados
pelo vento de coisas que me varreu.
Fiquei trapos, só farrapos
tentei acabar-me
mas isso acabou-me.
Fiquei retalhos sem fé,
fiquei porque não pude partir.
Ah, mas eu queria voar
levantar-me restos até o alto
tentar achar o que aqui embaixo não encontrei.
Da primeira tentativa
restou-me chagas do tombo ao chão,
da segunda restou-me somente
a intenção de esquecer.
Sou pobre diabo
que emenda palavras
porque não pôde emenda-se.
Sou pouco, sou nada
sem crença, sem meta
sem forças nem sortes.
Penso (se é que ainda penso)
que nasci depois da paz que perdi.
