Poemas

13/06/1976

13 de junho de 1976 · admin

O escuro do céu me assusta.
Pergunto-me se sou eu mesma
que o contempla.
Leio versos de Pessoa
e entendo que nunca vou entender.
Como nos versos, chove também lá fora
e foram os versos que me deram inspiração
para ousar dizê-lo.
Há uma goteira por aí,
ela soa como um gemido
de alguém que sofre e não consegue chorar.
Olho as coisas para pensar no que dizer
e o fato de olhar, já é algo para dizer.
Também estou perplexa, por estar perplexa;
os momentos de compreensão da vida
são os piores de toda a vida.
Há pouco eu senti que devia escrever,
mas tentei e nada saiu de mim,
e de repente, olhei o céu, peguei a caneta
e fui soltando o que estava por dentro.
Não foi obra do acaso,
foi uma obra de Fernando Pessoa.
Se eu acreditasse em almas,
diria que a dele se encarnou em mim,
mas como não acredito nelas
digo que fui eu que me encontrei em seus versos.
Prometi a minha mesma
que não mais sorrirei,
talvez eu não cumpra a promessa
mas cumprirei a intenção.
É possível que isto que estou escrevendo
um dia seja lido por um Miguel, por uma Maria,
e esse Miguel e essa Maria
fiquem estupefatos, sem compreender tanta besteira,
mas o poeta e eu sabemos ou sabíamos porque fizemos ou o fazemos
Pessoa é Pessoa, e eu sou eu;
seus versos são arte, os meus besteiras
mas ambos dissemos o que achamos que devia ser dito.

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