Poemas

Paredes de aluguel

9 de março de 2025 · admin

Tiram-me o sol, a visão da lua

Sugam-me o sangue e o suor

Assomam-me as lágrimas e o peito

impunemente…

E o mundo continua girando

incansavelmente.

Cospem-me na cara. E o que faço eu, meu Deus?

Choro, grito, sofro e sinto.

Haverá um dia em que eu tenha algo meu?

Talvez eu tenha, uma música, um sonho, uma missão?

Algo que não seja destruído?

Sufoca-me esse ar e também a sensação de perda.

Sufoca-me o medo que sinto das pessoas.

Talvez outro solo, outro chão,

talvez um nada de consequências.

Queriam-me perdida…

Sinto a estranheza de meus trações diante

do espelho cansado e sujo,

Sinto a indignidade de meus olhos quando miram

essas paredes essas tantas paredes infectadas de solidões,

de anseios e de desesperanças.

Um sonho absolutamente meu, onde consegui-lo?

Debaixo de meus pés descalções?

Preso em minhas mãos pequenas?

Por que meu eu tão forte, tão sensível?

Essa força incontrolavél a machucar minha alma?

Cansei-me do espaço que sonho, do tempo que me resta,

de sentir o que me escapa.

Não me tirem nada mais, mas entrego-lhes o que ainda guardo

tomem, arranquem de mim meu espectro de vida

para que nada fique de testemunho.

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